Representatividade está na moda

Todos sabemos do potencial da moda como um canal de valores e tendências, e não estou aqui para chover no molhado, mas apontar para uma questão que tem intrigado meus pensamentos nos últimos tempos: a representatividade e seus usos políticos. Deslocar esse debate para o mundo das passarelas é tentar saber se este universo pode ser um vetor afirmativo de valores antirracistas.

Antes de tudo é preciso conceber o racismo como uma construção ideológica, ou seja, ele só se perpetua por conta de todo um sistema de ideias que o sustenta e dão um sentido “racional” para a sua existência, que naturalize as relações desiguais na sociedade entre negros e brancos. Para que isto se consolide no pensamento das pessoas os veículos de comunicação e demais instâncias da indústria cultural desempenham um papel fundamental, a moda certamente está inclusa nisto.

A expressão “ocupar os espaços” passou a ser bastante afirmada não só pelos movimentos que pautam a questão racial, mas também por aqueles que lutam pelas questões de gênero. Ver figuras negras em locais de destaque na sociedade certamente é algo a ser celebrado. É inegável o efeito que isto pode ter na autoestima de grupos que sempre se viram segregados de locais que ajudam a formar gostos, pensamentos ou subjetividades.

Em contrapartida, a representação não pode ser algo meramente cosmético, para além da imagem de uma figura negra que desfila nas grandes fashion weeks do mundo, ou que assina a criação de coleções das maiores marcas, é preciso se perguntar qual horizonte esta pessoa aponta? Pensando até mesmo na ideia de ocupação de espaços, vale se questionar se determinados espaços são mesmo para serem ocupados?

Um dos maiores intelectuais marxistas da atualidade, Silvio Almeida, vai dizer que “uma desgraça não deixa de ser uma desgraça por ser colorida”. Obama foi presidente dos Estados Unidos e, no entanto, isto não encerrou o ímpeto imperialista do Estado norte-americano, sem contar que o movimento Black Lives Matter emergiu sob o seu governo.

Recentemente a ginasta Simone Biles anunciou sua nova parceria com a empresa Athleta. Com uma equipe formada quase 100% por mulheres, a nova patrocinadora, além de desenvolver uma linha de roupas da esportista, também se colocou como uma plataforma para que Biles amplie seu ativismo contra o abuso sexual e inspire outras meninas a serem ginastas através de conversas ou turnês de exibição. Por outro lado, a Athleta é ligada à Gap, e nos últimos anos não foram poucas as vezes em que o nome da companhia esteve envolvida em denúncias de trabalho escravo. Qual será a postura de Simone em relação a isso?

Representatividade precisa estar conectada a uma agenda e compromisso político, pois a luta antirracista é sobretudo política. A moda é uma grande vitrine que pode contribuir para uma cultura que coloque o negro como referência positiva, mas isto precisa partir de ações que venham desde o plano concreto ao simbólico. Convido a você a refletir sobre isso junto comigo aqui neste espaço.   

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