
NECROPOLÍTICA NA INDÚSTRIA DA MODA: quando o valor da roupa supera o valor da vida.
Por Paty Barbosa
Nos últimos dias, denúncias envolvendo oficinas de costura em Minas Gerais voltaram a colocar sob escrutínio uma das contradições mais profundas da indústria da moda contemporânea. Fiscalizações do Ministério do Trabalho identificaram trabalhadores imigrantes submetidos a jornadas exaustivas, condições precárias de trabalho e ambientes insalubres na produção de peças destinadas ao mercado de alto valor agregado.
Não se trata de um episódio isolado. Casos como esse revelam uma engrenagem estrutural que sustenta parte significativa da cadeia produtiva da moda: a invisibilidade de quem produz.
Para compreender esse fenômeno para além da indignação momentânea, é útil recorrer ao conceito de necropolítica, formulado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe no campo da Filosofia Política. Em linhas gerais, Mbembe argumenta que determinadas estruturas de poder operam a partir da capacidade de decidir quais vidas devem ser protegidas e quais podem ser expostas à precariedade, à violência ou à morte.
Quando essa lente é aplicada à indústria da moda, revela-se uma dinâmica inquietante: a existência de territórios e corpos sistematicamente expostos a condições degradantes para sustentar a lógica de produção e consumo.
A ESTÉTICA CONSTRUÍDA SOBRE A DESIGUALDADE
A moda contemporânea construiu uma economia sofisticada baseada em criatividade, identidade cultural e valor simbólico. Marcas investem pesadamente em design, narrativa e posicionamento. O produto final é envolvido por uma atmosfera de desejo, pertencimento e expressão estética.
Entretanto, a materialização dessa estética depende de uma cadeia produtiva altamente fragmentada. Enquanto o valor simbólico se concentra nos centros criativos e nos mercados consumidores, a produção é frequentemente deslocada para ambientes marcados por vulnerabilidade social, informalidade e baixa fiscalização.
Esse deslocamento não é acidental. Ele constitui um dos mecanismos que tornam possível a compressão de custos e a aceleração dos ciclos de produção que caracterizam o sistema atual da moda.
Em outras palavras, a sofisticação da superfície frequentemente convive com a precariedade estrutural de sua base produtiva.
A DILUIÇÃO DA RESPONSABILIDADE
Outro aspecto central desse modelo é a multiplicação de camadas de terceirização. Oficinas independentes, subcontratações sucessivas e cadeias produtivas opacas criam uma arquitetura que dificulta a identificação de responsabilidades diretas.
Quando denúncias emergem, marcas frequentemente alegam desconhecimento das condições de trabalho nas oficinas envolvidas. Contudo, investigações recorrentes mostram que esse distanciamento é, muitas vezes, mais jurídico do que material.
A produção continua inserida em um sistema de dependência econômica e operacional que conecta diretamente oficinas, intermediários e empresas contratantes.
Esse mecanismo revela uma característica típica das estruturas analisadas por Mbembe: a criação de sistemas nos quais a violência estrutural se torna difusa, naturalizada e, sobretudo, invisível.
CORPOS VULNERÁVEIS NA BASE DA CADEIA
Nos casos recentes investigados no Brasil, como em tantos outros episódios envolvendo o setor têxtil, o perfil dos trabalhadores resgatados segue um padrão recorrente: migrantes latino-americanos, frequentemente bolivianos, ocupando posições extremamente vulneráveis dentro da cadeia produtiva.
Esses trabalhadores se encontram em uma zona de intersecção entre informalidade econômica, fragilidade jurídica e dependência financeira. Essa combinação cria condições ideais para práticas de exploração que, em muitos casos, se aproximam do trabalho análogo à escravidão.
Não se trata apenas de desigualdade econômica. Trata-se de um sistema que se organiza a partir da distribuição desigual de riscos e precariedades.
Enquanto o valor da moda circula globalmente, os custos humanos permanecem concentrados em territórios e populações específicas.
O PARADOXO DA MODA CONTEMPORÂNEA
A indústria da moda ocupa hoje uma posição paradoxal. Ao mesmo tempo em que se apresenta como um campo de inovação cultural e expressão identitária, ela permanece profundamente marcada por assimetrias históricas de trabalho e produção.
A criatividade que impulsiona o setor convive com uma estrutura produtiva que, em muitos casos, reproduz lógicas herdadas de economias coloniais e industriais: externalização de custos, exploração de mão de obra barata e invisibilização da base produtiva.
Casos recentes como o ocorrido em Minas Gerais demonstram que essas dinâmicas não pertencem apenas a cadeias produtivas distantes. Elas também operam dentro do próprio território brasileiro, revelando que o problema é sistêmico e não geográfico.
PARA ALÉM DA ESTÉTICA
Diante desse cenário, a discussão sobre sustentabilidade na moda precisa ultrapassar o debate restrito às matérias-primas ou aos impactos ambientais.
Sustentabilidade, em sua dimensão mais profunda, exige considerar as condições de vida e trabalho das pessoas que tornam possível a existência das roupas que consumimos.
Isso implica avançar em direção a mecanismos mais robustos de rastreabilidade, transparência e responsabilização nas cadeias produtivas.
Mas também exige algo mais difícil: questionar o próprio modelo de produção acelerada e de consumo constante que sustenta a indústria.
A pergunta fundamental talvez não seja apenas “quem fez minhas roupas”, como propõe a campanha do Fashion Revolution, mas em quais condições essa vida foi colocada para que essa roupa existisse.
A ÉTICA COMO FUTURO DA MODA
A moda possui um poder cultural extraordinário. Ela molda identidades, comunica valores e influencia comportamentos em escala global.
Justamente por isso, ela também carrega uma responsabilidade proporcional ao seu alcance.
Se o futuro da moda pretende ser verdadeiramente inovador, ele precisará incorporar não apenas novas estéticas, mas novos parâmetros éticos de produção.
Porque nenhuma indústria pode reivindicar criatividade, sofisticação ou sustentabilidade enquanto parte de sua cadeia produtiva permanece estruturada sobre a precarização invisível de vidas humanas.
No limite, a verdadeira revolução da moda talvez não esteja na próxima tendência, mas na capacidade de transformar as condições de existência de quem costura, corta, borda e produz aquilo que o mundo veste.
Fonte: Estado De Minas e Fashion Revolution

Paty Barbosa
Advogada, pesquisadora e consultora em moda, sustentabilidade e negócios criativos de impacto.
Advogada, pesquisadora e consultora em moda, sustentabilidade e negócios criativos de impacto.

