
Entre Concreto e Arco‑Íris
Um ensaio sobre o autorrespeito e a resistência do corpo urbano
Por: Fellipe Mion
Numa noite abafada na Consolação, escrevi em letras duras no meu caderno: “Nem sempre os sinais abrirão verdes para mim.” Foi o fim da inocência — o instante em que percebi que sorrir, ser educado e ter boas intenções não basta. A cidade não devolve amor. Ela engole.
O autorrespeito não é charme social, nem reputação. É disciplina íntima: atravessar a Sé como quem atravessa um campo minado; segurar firme a mão do namorado na Augusta, mesmo quando olhares atravessam como lâminas. É pacto silencioso, quase cruel, consigo mesmo.
Mas cada gesto de autorrespeito cobra preço.
Um beijo pode virar agressão.
Um abraço pode terminar em empurrão.
Um corpo que dança livre pode ser arrastado para fora da balada.
Em 2017, na Avenida Paulista, Luiz Carlos Ruas, conhecido como “Índio”, foi espancado até a morte por defender duas travestis.
Em 2018, na Zona Leste, Verônica Bolina, travesti, foi brutalmente agredida e exposta pela polícia, tornando-se símbolo da violência institucional.
Em 2022, um jovem foi atacado na República após beijar o namorado — mais um nome que não entrou nos jornais, mas que entrou nas estatísticas.
Em 2026, só nos primeiros meses, já foram mais de mil denúncias de violência LGBTfóbica registradas na cidade.
Cada ato de coragem é também um risco de morte.
Amar em São Paulo é resistir.
Resistir ao preconceito, ao cansaço, ao peso de ser “normal”.
Resistir sabendo que a República, a Bela Vista e a Consolação são também territórios de violência, onde insultos viram boletins de ocorrência e cicatrizes viram estatísticas.
Tudo o que descrevo tem se tornado algo que, entre 2015 e 2026, tenho cada vez menos coragem de fazer.
Porque cada gesto é também convite à violência.
E o medo, às vezes, pesa mais que a coragem.
O autorrespeito é disciplina, mas também é ferida.
É saber que a vida não se resume ao concreto cinzento, mas também ao sangue que já manchou calçadas, às sirenes que cortam a noite, aos corpos que não voltaram da festa.
É a coragem de dançar no meio da rua, sabendo que pode ser a última dança.
É beijar sem medo, mesmo quando o medo nunca desaparece.
São Paulo nos ensina que o respeito verdadeiro não vem dos outros, mas de nós mesmos.
Que cada travessia é batalha.
Cada gesto é resistência.
Cada ato de amor é também um ato de guerra.
O autorrespeito é aceitar o risco: entrar na linha vermelha sabendo que será esmagado pela multidão, mas seguir porque o destino importa mais que o desconforto.
Amar em público, mesmo sob olhares tortos, mesmo sob ameaças, porque a liberdade vale mais que a paz falsa.
E há algo de paradoxal nisso: o autorrespeito nos fecha em nós mesmos, mas também nos abre ao mundo.
Ele nos dá a coragem de assumir falhas, de rir das quedas, de dizer não.
Ele nos dá a força de enfrentar socos, insultos, perseguições.
Ele nos dá a força de enterrar amigos e, ainda assim, continuar.
Sem ele, somos escravos das demandas alheias.
Cada silêncio vira acusação.
Cada ausência vira culpa.
Com ele, aprendemos que não devemos nada além da nossa própria verdade — mesmo quando essa verdade nos expõe ao ódio.
O público LGBT paulistano vive essa verdade todos os dias: no beijo roubado na República, no abraço apertado na fila da balada, no corpo que dança livre na Parada.
Cada gesto é manifesto.
Cada ato é sobrevivência.
Cada cicatriz é lembrança: “Eu existo, eu me respeito, eu não me escondo.”
São Paulo nos ensina que o autorrespeito não é escudo contra o sofrimento, mas arma contra a alienação.
Não garante felicidade — abre, porém, a porta da liberdade.
Não elimina o preconceito, mas oferece munição para enfrentá-lo, mesmo quando essa munição é apenas o próprio corpo exposto.
No fim, o autorrespeito é o que nos permite deitar na cama dura que nós mesmos fizemos — desconfortável ou não — e, ainda assim, dormir em paz.
Deitar na cama, quando não deitamos em caixões.
É o que nos permite atravessar a cidade sem nos perder.
É o que nos permite amar sem pedir desculpas.
Queremos acreditar que é isso que nos salva — mas afirmar isso é também reconhecer a ausência do autorrespeito.

Fellipe Mion é advogado e servidor público em São Paulo. Especialista em Direito da Moda e Gestão de Informações Sensíveis pela União Europeia. Como artista, constrói sua escrita no cruzamento entre o ensaísmo e o trabalho editorial. Sua voz, confessional e fragmentária, atravessa a memória com lucidez analítica, sustentando a tensão entre o vivido e o pensado sem buscar resolvê‑la — mantendo o sentido em permanente suspensão.

